Mais sobre: O que ver no interior da La Pedrera em Barcelona
Considerado pelos especialistas como o edifício de arquitetura civil mais emblemático de Antoni Gaudí, uma visita ao interior desta importante obra é essencial para compreender a evolução do renomado arquiteto barcelonês, além de ser uma das melhores atividades para fazer em Barcelona.
Gaudí construiu a Casa Milà (nome verdadeiro do edifício) aos 57 anos, entre 1906 e 1912, sendo esta a última obra que conseguiu concluir antes da sua morte. Obras como a Sagrada Família ficaram inacabadas com a sua morte.
Então, se já tens os teus bilhetes para a Pedrera, certamente perguntar-te-ás: O que há de maravilhoso neste edifício? A que devo prestar atenção quando decidir visitá-lo? A seguir, dou-te todos os detalhes daquela que é, possivelmente, a minha obra favorita em toda a cidade. Espero que gostes!
1. Os átrios de acesso
A Casa Milá está localizada num terreno de esquina, pelo que possui duas entradas principais: uma pela rua Paseo de la Gracia e a outra diretamente no característico ângulo que formam as esquinas das ruas de Barcelona. Os átrios são amplos e cheios de luz graças à presença de janelas, uma porta principal em ferro e vidro, mas sobretudo à luz que penetra pelos pátios interiores.
Os dois átrios da La Pedrera funcionam como ponto de ligação para todas as divisões do conjunto. As majestosas escadarias ligam diretamente ao piso principal, inicialmente concebido como a habitação dos proprietários, os senhores Milá. A ligação ao resto dos apartamentos e ao terraço é feita através dos elevadores. Gaudí concebeu o elevador como o principal elemento de comunicação vertical, colocando escadas adicionais para uso principalmente do serviço.
2. A coroa do edifício: o terraço
O terraço da Casa Milá não se parece com nada que já tenha visto. Neste local, Gaudí concebeu um espaço aberto saído de um romance de fantasia. O poeta espanhol Pere Gimferrer descreveu este local como «o jardim dos guerreiros» devido às 28 chaminés, cujas formas curvas não se assemelham em nada às chaminés convencionais, mas sim a imponentes guerreiros mascarados.
No terraço, os pisos ondulados dão lugar a degraus e desnivelamentos, pelo que, durante o percurso, recomendo ** prestar muita atenção aos pés**, embora isso resulte difícil, pois para onde quer que olhe irá deparar-se com detalhes escultóricos e arquitetónicos que cativarão toda a sua atenção.
Além dos caminhos sinuosos, milhares de pedaços de mármore partido e ladrilhos de Valência servem para revestir várias das esculturas-chaminés, porque durante a noite o terraço ilumina-se de forma espetacular com o acender das luzes do teto.
Como se tudo isto não bastasse, a partir da fabulosa esplanada obtêm-se algumas das melhores vistas de Barcelona.
3. O ático da baleia e a exposição Gaudí
Muitos poderão questionar-se se será ou não interessante visitar o sótão de um edifício, mas quando se trata de um edifício de Gaudí, a resposta será sempre positiva. Batizado como o sótão da baleia, no projeto inicial de Gaudí este espaço foi concebido para albergar as instalações de serviço e a lavandaria do edifício. No entanto, uma área de serviço não é sinónimo de um espaço relegado ou de segunda categoria, mas sim o contrário.
Atualmente, o espaço do ático funciona como museu, pelo que, além de admirar a estrutura, poderá desfrutar da coleção Espai Gaudí, inteiramente dedicadaà obra do arquiteto. Aqui poderá encontrar dezenas de maquetes e plantas das suas obras mais famosas, bem como espetaculares maquetes em gesso feitas à escala para estudar a fachada e a estrutura da Casa Milá.
4. O sistema de pátios e o seu significado conceptual
O sistema de pátios interiores criado por Gaudí serviu como uma solução arquitetónica bastante engenhosa que ajudou a resolver o problema da ventilação e iluminação dos blocos de edifícios independentes. Dois pátios interiores, um mais pequeno e outro de maiores proporções, elevam-se desde o rés-do-chão diretamente até ao telhado. Entrar nestes espaços e elevar o olhar para o céu é um deleite para os sentidos; vejamos as qualidades de cada um.
O Pátio das Flores
A característica principal e decididamente peculiar do Pátio das Flores é, sem dúvida, o uso da cor. A este espaço acede-se através do átrio de entrada que dá para a rua Paseo de Gracia.
Se vieres de ver o exterior, rapidamente notarás que um jogo de formas, cores e luzes oferece um espetáculo que contrasta claramente com a sobriedade cromática que caracteriza a fachada da Casa Milá. O Pátio das Flores tem uma área de 90 metros, sendo assim o mais pequeno dos dois.
O Pátio das Borboletas
Por sua vez, o Pátio das Borboletas fala-nos da natureza e da vida em movimento, sendo esta a sua qualidade mais marcante. A própria estrutura é composta por inúmeras formas esculturais que evocam criaturas da natureza: uma imensa borboleta pousada no limiar da entrada ou uma grande asa de algum inseto de dimensões impossíveis envolve a escadaria que sobe até ao piso principal. O pátio das borboletas é o maior e mais imponente dos dois, com os seus 150 m², e situa-se atrás do átrio que faz ligação com a rua Provenca.
5. A cave: uma inovação sem precedentes!
Seguindo um padrão semelhante de formas orgânicas, Gaudí concebeu este espaço como uma garagem, onde se podiam guardar as carruagens e os automóveis pelos quais o proprietário do projeto já era aficionado. O acesso ao porão é feito através dos dois átrios principais por meio de rampas helicoidais e, atualmente, este espaço é utilizado como auditório.
Deixando de lado as formas curvas, pode ser que, nos tempos modernos, o porão da Pedrera nos pareça uma solução espacial comum num edifício residencial. No entanto, é de vital importância compreender o contexto histórico em que este projeto foi construído. Em 1912, não existia uma solução semelhante em nenhum lugar do mundo; não se concebia a necessidade de dedicar um espaço para o abrigo de um veículo; isto apenas evidenciou, com o passar dos anos, o quão à frente do seu tempo esteve a obra e a engenhosidade de Gaudí, capaz de refletir sobre as necessidades da vida moderna e antecipar-se a elas.
6. O sistema estrutural e a utilização dos materiais
Durante a sua visita à La Pedrera, procure sempre prestar atenção às soluções estruturais que Gaudí propôs para os diferentes problemas de construção. Desde pilares de pedra, tijolo ou ferro, ele não poupou no uso de materiais que lhe permitissem oferecer a melhor solução possível em cada cenário.
Durante a sua visita, irá notar que a distribuição interior das diferentes divisões se destaca por uma geometria livre. A ausência de paredes de carga resulta em espaços intercambiáveis que podem ser adaptados às necessidades do inquilino. A otimização da fachada como sistema estrutural permite distribuir as cargas sem necessidade de sobrecarregar os espaços interiores com vigas.
Na zona do sótão ou mansarda, Gaudí empregou toda a sua engenhosidade para criar uma estrutura de 270 arcos parabólicos de tijolo, cuja resistência serve para sustentar o telhado localizado logo acima.
7. O piso dos vizinhos e os móveis à medida
No quarto andar do edifício encontra-se o que é conhecido como «O apartamento dos vizinhos»; o único dos apartamentos de todo o edifício cujo design e mobiliário, até aos dias de hoje (mais de 100 anos depois), permanecem tal como Gaudí os concebeu.
Neste apartamento viveu durante décadas Pere Milà com a sua família. O interior mantém-se num estado de conservação impressionante, pelo que um passeio pelas suas divisões é semelhante a uma viagem no tempo, na qual se pode apreciar a forma como a classe alta de Barcelona vivia no início do século passado. É perturbador e maravilhoso ver como, apesar do passar do tempo, até os brinquedos das crianças parecem ter ficado congelados no tempo.
Na sua visita, preste especial atenção aos móveis feitos à medida desenhados por Gaudí; autênticas peças de arte do movimento modernista.
8. As portas de entrada
O acesso ao átrio da Casa Milá é feito através de portas de ferro forjado cujo aspeto não serve senão para enfatizar a linguagem única da obra de Gaudí. Este mesmo estilo foi mantido em todas as varandas que interagem na fachada principal e noutras balaustradas no interior do edifício.
O seu design orgânico evoca formas naturais, desde asas de borboletas até carapaças de tartarugas; a combinação de materiais como ferro e vidro serve vários propósitos: em primeiro lugar, como elemento de proteção do exterior e, em segundo lugar, como recurso de iluminação natural que permite banhar de luz o espaço do átrio.
9. As pinturas e murais
No interior da Casa Milá é possível encontrar algumas obras artísticas típicas dos movimentos modernistas populares da época. Esta intenção pode ser apreciada nos átrios, onde se pode apreciar a obra do artista Aleix Clapés. O seu trabalho para a obra de Gaudí segue temas de inspiração mitológica e, embora tenha sofrido várias restaurações, continua a conservar-se fabulosamente. Preste especial atenção aos murais nas escadarias que ligam o piso de acesso ao piso principal do edifício.
É importante compreender que a arquitetura de Gaudí não procurava a ornamentação excessiva das paredes através de obras plásticas convencionais, como as pinturas; Gaudí preferia a integração da arte diretamente na forma, com a combinação e o uso de diferentes materiais para conseguir expressar a sua linguagem criativa.
10. A fachada é um fiel reflexo do estilo de Gaudí
Quer seja à saída ou à chegada ao edifício, é obrigatório que reserve um momento para analisar o elemento mais vistoso, singular e marcante de todo o edifício: a sua imponente fachada. A fachada, totalmente em pedra e com formas ondulantes, tornou-se um projeto altamente controverso para a época e suscitou o descontentamento de grande parte dos seus contemporâneos. A alcunha de La Pedrera nasce precisamente das zombarias daqueles que, na altura, consideravam o edifício feio e desagradável.
A Casa Milá é considerada uma obra inovadora principalmente pela sua estrutura totalmente em aço e pela utilização de paredes cortina, sobretudo na sua fachada autoportante. Ao uso da pedra ondulada para a criação de formas orgânicas singulares junta-se a adição de ferro forjado presente nas imponentes portas de acesso (que também utilizam vidro), nos balaústres das varandas e nas janelas que dão diretamente para as ruas.
Esta foi a última obra de caráter civil que o arquiteto construiu antes de se dedicar inteiramente ao projeto e construção da Sagrada Família, pelo que em La Pedrera é possível ver a maturação total do seu estilo peculiar. Gaudí consegue deixar-nos um edifício artificial que imita maravilhosamente a natureza.